O TEATRO NA FORMAÇÃO DE PROFESSORES

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O TEATRO NA FORMAÇÃO DE PROFESSORES: DESVENDANDO TRAJETÓRIAS, REVELANDO DESEJOS, MARCAS E LEMBRANÇAS
Andrisa Kemel Zanella1

Valeska Fortes de Oliveira2
Resumo: Esse trabalho traz algumas reflexões iniciais da pesquisa que vem sendo realizada no Mestrado em Educação da Universidade Federal de Santa Maria. Tem por objetivo direcionar o olhar para a formação inicial de professores, buscando refletir quais as representações imaginárias que os alunos do Curso de Pedagogia possuem a cerca do Teatro antes e depois de vivenciarem a linguagem teatral na Disciplina de Jogo Teatral I e II. Esse estudo centrar-se-á em rememorar as experiências que os sujeitos já vivenciaram em relação à linguagem teatral ao longo da sua trajetória de vida escolar até o presente momento, através de relatos autobiográficos, buscando refletir sobre as significações que o teatro adquiriu nessa caminhada até a formação professoral. Para subsidiar essa pesquisa, escolhi como metodologia a abordagem qualitativa. Esta escolha justifica-se pela possibilidade de refletir as experiências vivenciadas ao longo da trajetória de vida dos sujeitos, bem como o processo presente de descoberta e jogo exploratório que o Teatro proporciona na formação. Neste contexto, elenquei como metodologia de pesquisa, a História de Vida Oral e Escrita. Utilizo como instrumento de investigação a observação participante, o diário de campo, entrevistas semi-estruturadas, relatos autobiográficos, registros fotográficos e de vídeo, bem como escritas dos alunos relatando a aula e colocando suas impressões pessoais no processo que vêm vivenciando. Para a realização e discussão dos temas principais deste trabalho, trago autores como Nóvoa, Cortesão, Oliveira, Josso, Meihy, Mazzoti, para discussões sobre formação de professores, imaginário, história de vida, representações e narrativas. Ressignificar a Formação através do Teatro na Educação e das Representações Sociais, pela experimentação prática e pela Memória, é um recurso que possibilita direcionar o foco para o aluno, como agente de sua formação e compreender os caminhos que a Educação vem percorrendo.
Palavras-chave: Formação, Teatro, História de Vida, Imaginário, Representações
O TEATRO NA FORMAÇÃO DE PROFESSORES: desvendando trajetórias, revelando desejos, marcas e lembranças
“Não importam muito os significados mas a invenção
que cada um liberta dentro de si e lança no tempo.”
(LUFT, 2001, p. 26)
Esse trabalho traz algumas reflexões iniciais da pesquisa que vem sendo realizada no Mestrado em Educação da Universidade Federal de Santa Maria. Tem por objetivo, direcionar o olhar para a formação inicial de professores, buscando refletir quais as representações imaginárias que os alunos do Curso de Pedagogia possuem a
1 Mestranda em Educação/PPGE/CE/UFSM
2 Profª. do Departamento de Fundamentos da Educação/PPGE/CE/UFSM
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cerca do Teatro antes e depois de vivenciarem a linguagem teatral na Disciplina de Jogo Teatral I e II.
Essa proposta de investigação surgiu no ano de 2005, após eu ter me formado no Curso de Artes Cênicas Bacharelado, a partir do momento que tive a oportunidade de desenvolver projetos na área de Teatro inserido no contexto da Educação e participar do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação e Imaginário Social, (GEPEIS), através de projetos de pesquisa e extensão e nas atividades culturais que o grupo promove.
Estas vivências possibilitaram-me ampliar o foco de discussão da arte teatral, e conhecer novas possibilidades de estudo na Educação, uma vez que entraram em cena os estudos do grupo sobre a Formação de Professores, História de Vida, Imaginário, Representações Sociais, Memória Docente.
Nesse mesmo ano fui convidada para trabalhar com o Curso de Pedagogia na disciplina de Metodologia de Ensino da Expressão Dramática no Currículo por Atividades (MEN 343) e Metodologia de Ensino da Expressão Dramática na Pré-Escola (MEN 350), hoje com a reformulação do currículo Jogo Teatral I e II. Nessa oportunidade comecei a pensar a importância que essa disciplina representa na formação desses alunos, uma vez que traz uma metodologia diferenciada que trabalha com a expressão corporal, a relação com o outro e o espaço, a brincadeira e a criação de jogos, valorizando as experiências pessoais de cada indivíduo ao longo de sua trajetória de vida.
A partir dessa experiência surge essa pesquisa, cujo foco centra-se na importância do teatro na formação inicial de professores. Considero esse momento da formação uma etapa muito importante, pois o aluno constrói sua identidade profissional, relacionando toda a sua história de vida e representações ao longo de sua existência, com a construção do ser professor. A formação inicial nos fornece as bases para construirmos o conhecimento pedagógico especializado, que se constitui desde o começo da socialização profissional e da ascensão de regras e princípios práticos (Imbernón, 2000).
Pimenta (2002) comenta que quando o aluno chega ao curso de formação inicial, já apresenta saberes sobre o que é ser professor, devido às experiências que viveu ao longo de sua vida e também por meio da experiência social, que vai desde as
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transformações históricas da profissão até os esteriótipos que a sociedade tem dos professores.
Diante deste contexto, pode-se dizer que a formação de professores é um momento de repensar os caminhos que a Educação vem percorrendo, e então, refletir sobre as possíveis práticas de ensino. Conforme aponta Cortesão (1991, p. 94).
A formação (...) poderá conceber-se (...) como um processo de aquisição de saberes, de saber fazer, e de atitudes, quer uma forma de transmissão e manutenção de valores adquiridos feita ou por meio de inspiração, de cópia, de um modelo, ou através da conquista de aprendizagens. Mas poderá também pensar-se a educação como desenvolvimento de capacidades/potencialidades do professor em formação.
Acredito que quando valorizamos as competências do professor em formação, direcionando o olhar às representações, símbolos, imagens, lembranças, valores, sentimentos e também os sonhos, que este indivíduo construiu ao longo de sua trajetória de vida, criamos possibilidades de autonomia frente ao processo educativo, propondo a partir de então, como coloca Oliveira (2004) olhar a formação a partir da sua produção e da sua subjetividade.
Esta possibilidade de releitura e construção de referenciais próprios, de uma postura crítica diante das metodologias que são trabalhadas na formação, pode acontecer no momento em que o aluno, futuro professor, trabalha com suas Memórias de Vida. Tornando-se, desta maneira, agente do seu processo de formação, em que os saberes passam a ser construídos a partir de experiências já vivenciadas num processo de reconstrução de imagens e lembranças. Ao estimular o imaginário dos alunos, abrimos a porta para
a dimensão simbólica das relações, das instituições, do cotidiano, das criações sociais, enfim, da realidade. Passamos a perceber o homem não somente pela sua dimensão racional, pela sua dimensão do trabalho, mas também como um animal simbólico.(...) Este olhar nos permite uma aproximação dos sentidos e dos significados construídos pelas pessoas e pela sociedade como um todo acerca das suas criações sociais (instituições, normas, comportamentos, valores, crenças, entre outras.) (Oliveira, 2002, p.162)
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Nesse processo, a memória assume um papel de extrema importância na formação, uma vez que cria caminhos à reflexão através de experiências pessoais de vida. De acordo com Marques a memória (2003, p.111) “não é apenas repertório, uma estocagem (stoicheion) de elementos disponíveis para muitos usos, é sobretudo usina de transformações deles em função de um uso oportuno. A memória não só guarda, também esquece para dar vida nova.”
Nossa escolha abre possibilidades de trazer, através da Memória, as representações que se formaram ao longo da trajetória de vida dos sujeitos, dando ênfase ao processo de re (construção) de significados e valores a partir das vivências cotidianas que envolvem a Formação.
Conforme Mazzotti (1994, p. 59-60), as representações sociais investigam
justamente como se formam e como funcionam os sistemas de referências que utilizamos para classificar pessoas e grupos e para interpretar os acontecimentos da realidade cotidiana. Por suas relações com a linguagem, a ideologia e o imaginário social e, principalmente, por seu papel na orientação de condutas e das práticas sociais, as representações sociais constituem elementos essenciais à análise dos mecanismos que interferem na eficácia do processo educativo.
Trabalhar com as representações na formação de professores propicia aos alunos uma maneira diferenciada de construir seus saberes, pois cria a possibilidade do indivíduo refletir e ressignificar os caminhos que percorreu em sua vida, reconstruindo significados à realidade em sua volta. As representações no ambiente escolar encaminham a um repensar sobre a prática docente, descaracterizando-a como um processo não apenas de aprender teorias pedagógicas, mas de experimentação e vivência de práticas que possibilitem o professor refletir e construir seu fazer pedagógico.
Diante deste contexto, o teatro apresenta-se como um instrumento que possibilita um processo diferenciado de aprendizado, a partir do momento que desenvolve no aluno em formação, criatividade, auto-estima, consciência corporal, dando-lhe elementos para construir seus conhecimentos, partindo da experimentação e reflexão da prática em que teve a oportunidade de realizar.
Para subsidiar essa pesquisa, escolhi como metodologia a abordagem qualitativa, pois possibilita aos envolvidos na pesquisa refletir sobre o seu fazer e os significados atribuídos à relevância do Teatro na Formação de Professores.
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Segundo Minayo (1994), “a abordagem qualitativa trabalha com o universo de significados, manifestações, aspirações, crenças, valores e atitudes, o que corresponde a um espaço mais profundo das relações, dos processos e dos fenômenos que não podem ser reduzidos à operacionalização de variáveis.”3
O que importa é a natureza dos significados das ações e das revelações humanas, através de um caminho que se centra em trabalhar “com a vivência, com a experiência, com a cotidianeidade e também com a compreensão das estruturas e instituições como resultado da ação humana objetivada”4. Frente a esta opção de abordagem metodológica, elegi como foco central deste projeto o significado das representações sociais atribuídos ao Teatro na Educação.
Esta escolha justifica-se pela possibilidade de refletir as experiências vivenciadas ao longo da trajetória de vida dos sujeitos, bem como o processo presente de descoberta e jogo exploratório que o Teatro proporciona na formação. Através da experiência de operar e brincar com o meio, vai-se experimentando e verificando as possibilidades que vão surgindo e contribuindo na construção do futuro professor. Neste contexto, elenquei como metodologia de pesquisa, a História de Vida Oral e Escrita.
Oliveira (2004) destaca a importância desta no trabalho com professores ao afirmar que,
Histórias de Vida põem em evidência o modo como cada pessoa mobiliza os seus conhecimentos, os seus valores, as suas energias, os seus repertórios. Numa história de vida podem ser identificadas as rupturas e as continuidades, “as coincidências no tempo e no espaço, as ‘ transferências’ de preocupações e de interesses, os quadros de referência presentes nos vários espaços cotidianos” (p. 18).
Como o foco em questão centra-se sobre as representações que os alunos do Curso de Pedagogia têm e constroem sobre o teatro, partindo de vivências com esta linguagem durante sua trajetória de vida e na disciplina de Jogo Teatral I e II, delimitou-se um possível caminho para direcionar este estudo e assim, refletir sobre as significações que o teatro assumiu ao longo da vida escolar, como ele apresenta-se no início da formação inicial e quais as representações construídas após a vivência prática no Curso de Pedagogia. Será que haverá novos olhares sobre o Teatro?
3 MINAYO, 1994, p. 22.
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Os sujeitos envolvidos na pesquisa são os alunos do 5º semestre do Curso de Pedagogia, que se matricularam na disciplina de Jogo Teatral I. Nesta etapa, utilizo como instrumento de investigação a observação participante, onde me insiro no contexto investigado passando a fazer parte deste universo de formação docente e participando do cotidiano destes sujeitos, num contato direto e prolongado com o universo a ser observado.
Nesse primeiro momento, utilizo o diário de campo, registros fotográficos e de vídeo, bem como escritas dos alunos relatando a aula e colocando suas impressões pessoais ao processo que vêm vivenciando.
Após esta primeira estapa, selecionar-se-ão os sujeitos a partir da participação na disciplina, e continuará a coleta de dados pela Narrativa Oral, através de encontros com o grupo, num enfoque coletivo, mas também individual. Trabalhar com a História de Vida Oral é, segundo Meihy (2002, p. 13), “um recurso moderno usado para elaboração de documentos, arquivamento e estudos referentes à experiência social de pessoas e de grupos. Ela é sempre uma história do tempo presente e também reconhecida como história viva.”
Neste momento, o foco centrar-se-á em rememorar as experiências que os sujeitos já vivenciaram em relação à linguagem teatral ao longo da trajetória de vida escolar até o presente momento, buscando refletir sobre as significações que o teatro adquiriu ao longo de sua vida e início da sua formação professoral. Através de entrevistas semi-estruturadas, em conversas informais, busca-se inserir os sujeitos neste universo de rememoração, direcionando-os, assim, às lembranças da inserção do Teatro em suas vidas.
Cada narrativa traz um esclarecimento particular ao conceito de processo de formação. (...) Contudo, quando utilizamos no nosso trabalho de compreensão/interpretação alguns desses referenciais, é para compreendermos os processos de formação e não pra verificar tal ou tal teoria das Ciências Humanas. (...) O vaivém entre estas narrativas provoca interrogações novas e faz progredir a compreensão do processo de formação” (JOSSO, 2002, p. 90)
Aqui será trabalhado também com a História de Vida escrita, dando um enfoque
4 Ibid., p. 24
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especial aos relatos autobiográficos, em que os sujeitos não apenas trarão suas vivências de vida para cena, mas relatarão as experiências que estão vivenciando nas aulas práticas. Albert (1993, p. 46-47 apud CATANI, 2000, p. 41-42), coloca que
a escrita supõe um processo de expressão e de objetivação do pensamento que explica sua atitude de reforçar ou constituir a consciência daquele que escreve. Escrever sobre si é auto-revelar-se, é um recurso privilegiado de tomada de consciência de si mesmo, pois permite “atingir um grau de elaboração lógica” e de reflexibilidade, de forma mais acabada do que na expressão oral.
Busca-se, com este direcionamento, “propiciar uma compreensão mais arguta da cadeia de relações que esses indivíduos mantêm com o conhecimento e a maneira pela qual atribuíram e atribuem significados às situações da vida escolar”. (CATANI, 2000, p. 18)
A pesquisa ainda está em andamento. Por enquanto apresento algumas impressões do estudo que vem sendo desenvolvido. O que pude perceber é que nem todos os alunos matriculam-se na disciplina por quererem cursar, mas pela obrigatoriedade na grade curricular. Isso se dá conforme a vivência que cada aluno teve com o teatro ao longo de sua trajetória escolar. Alguns gostam porque foram estimulados e outros ao serem forçados à apresentações escolares criaram uma barreira muito grande com o teatro, refletindo também na sua formação.
Marcas como estas que pretendo trazer no meu trabalho, para repensar a Educação através do Teatro na Formação de Professores, direcionando meus olhares às memórias e representações que os alunos do Curso de Pedagogia vivenciaram ao longo de suas Histórias de Vida e como isso é (re)significado ao cursarem a disciplina.
ALBERTI, Verena. Manual de História Oral. 2. ed. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2004.
ALVES-MAZZOTTI, Alda Judith. Representações Sociais: aspectos teóricos e aplicações à Educação. Revista Em Aberto, ano 14, n. 6, Brasília: MEC/INEP, jan./mar.
BOSI, Ecléa. Memória e Sociedade: lembranças de velhos. 3.ed., São Paulo, Companhia das Letras, 1994.
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BRANCHER, Vantoir. Helena Ferrari Teixeira: entre saberes e representações. Santa Maria, 2004. (Projeto de Dissertação de Mestrado)
CATANI, Denice Bárbara; BUENO, Belmira Oliveira; SOUSA, Cynthia Pereira; SOUZA, M. Cecília C.C. (Org.) Docência, Memória e Gênero – Estudos sobre formação. 2 ed. São Paulo:Escrituras, 2000.
CORTESÃO, Luisa. Formação: Algumas expectativas e limites – Reflexões críticas. Revista Inovação, v. 4, n. 1, Lisboa: Instituto de Inovação Educacional, 1991.
IMBERNÓN, Francisco. Formação docente e profissional: formar-se para a mudança e a incerteza. São Paulo:Cortez, 2000.
JOSSO, Marie-Christine Josso. Experiências de Vida e Formação. tr. de José Cláudio e Júlia Ferreira. Lisboa: Educa, 2002.
LUFT, Lya. Histórias do tempo. 3a ed. São Paulo: Mandarim, 2001
MARQUES, Mário Osório. Escrever é Preciso – O princípio da pesquisa. Ijuí: Editora Unijuí, 2003.
MEIHY, José Carlos Sebe Bom. Manual de História Oral. 4. ed. São Paulo: Loyola, 2002.
MINAYO, Maria Cecília. O Desafio do Conhecimento. São Paulo: HUCITEC,1994
NÓVOA, António. Vida de professores. Porto Codex – Portugal: Porto Editora LDA, 1992.
OLIVEIRA, Valeska Fortes. (Org.) Imagens de Professor. 2 ed. Ijuí: Editora Unijuí, 2004.
PIMENTA, Selma Garrido.(Org.) Saberes Pedagógicos e Atividade Docente. 3 ed. – São Paulo: Cortez, 2002.
PERES, Lúcia Maria Vaz; OLIVEIRA, Valeska Fortes de. Imagens e imaginários: a dimensão simbólica do vivido e do pensando na formação de professores. Cad. Educ. FaE/UFPEL, Pelotas (18): 153 – 170, jan./jun.. 2002
REALI, Aline Maria de Medeiros Rodrigues; MIZUKAMI, Maria da Graça Nicoletti. (Orgs.) Formação de Professores – Práticas pedagógicas e escola. São Carlos: EDUSCar, 2002.

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