PALESTRA 8 - PARA EDUCADOR SOCIAL - ATRAVÉS DA EDUCAÇÃO SEMPRE EXISTE UMA CHANCE !

Eram umas vezes
*José Rezende Jr. (para minha mãe)
Tínhamos quase nada em nossa casa, eu e minha mãe. Nossa casa parecia de cinema: era de papelão, como o cenário de um filme que jamais foi feito. (Minha mãe nunca foi ao cinema.) Mas entre o quase nada que possuíamos havia um tesouro pousado sobre o caixote que nos servia de mesa: era um livro. Sem ele, eu não estaria aqui.
Nosso livro foi o bem mais valioso que minha mãe encontrou em anos e anos de garimpo no lixo do qual extraíamos o que comer. Todas as noites, indiferente ao cansaço, à tosse,às dores nas costas, minha mãe abria o livro ao acaso e me contava uma história, que começava sempre assim: Era uma vez.
Minha mãe teve a capacidade infinita de multiplicar aquelas poucas páginas. Era muito fino o nosso livro, mas durou a melhor parte da minha infância. As histórias eram tristes e engraçadas,
com personagens bons e maus, finais felizes e infelizes. Tinham todas o mesmo cenário: um mundo encantado feito de tijolos sólidos, onde a chuva e o frio não eram monstros prestes a devorar indefesos moradores das casas de papelão. Naquele mundo, a comida vinha de plantas e bichos, não de montanhas de lixo que eu, minha mãe e uma horda de famintos cavoucávamos todos os dias. Nas histórias do livro, meninos não viam suas mães morrerem um pouco a cada dia, até morrerem para sempre, veladas pelos urubus.
Jamais soube o título do livro. Hoje, tenho dúvidas se era mesmo um livro, e não um caderno escolar, talvez em branco, atirado ao lixo por alguém que já não precisava dele. Hoje, desconfio que minha mãe não sabia ler, que ela inventava histórias para me fazer acreditar numa quase ficção: que além das nossas cordilheiras de lixo existia um outro mundo, e que dele eu poderia fazer parte.
Depois que minha mãe morreu, aprendi a ler nos abrigos e prisões para menores infratores onde passei a outra parte da minha infância. Li todos os poucos livros que pude, e eles me mantiveram vivo. Eu aprendia rápido, até que alguém colocou uma grande placa escrita “Pare” na minha frente.
Não pude seguir. Estava no reino dos tijolos sólidos, mas dele não fazia parte – eu era o personagem de carne e osso que os habitantes daquele mundo preferiam que existisse apenas
nos livros. Abandonei os estudos, mas cada carro que eu vigiava representava uma ou duas páginas do livro que compraria num sebo para ler à noite, deitado na minha cama de papelão, sob as marquises do centro da cidade.
Abracei a oportunidade de voltar a estudar como um afogado se agarra a tudo que não seja água. Termino o ProJovem com a promessa de atropelar cada uma das placas de “Pare” que colocarem diante de mim. Prometo escrever histórias, como a da mãe que inventava que lia histórias que ela mesma inventava.
A história de minha mãe começa assim: era uma vez. Quanto à minha própria história, ela começa agora. Neste exato momento em que abro o caderno e passo a escrever o meu destino.
* Mineiro de Aimorés, o escritor e jornalista José Rezende Jr. vive em Brasília. Em 2005 publicou seu primeiro livro, “A Mulher- Gorila e outros demônios” (contos). Você pode ler mais do que ele escreve em www.joserezendejr.jor.br (jornalismo&literatura).

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